quarta-feira, 15 de outubro de 2008

H. P. Lovecraft



O MESTRE DO INDIZÍVEL

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) é um dos maiores mestres da literatura de horror de todos os tempos. Seu estilo e temática inconfundíveis influenciaram autores como Stephen King e Clive Barker e continua a influenciar muitos autores até hoje. Nascido no dia 20 de agosto de 1890 filho de Sarah Susan Phillips e Winfield Scott Lovecraft, nasceu na casa de seus avós maternos, em Providence , Rhode Island, nos EUA, este escritor, que morreu prematuramente aos 47 anos, deixou uma obra controversa: sessenta e poucos contos e novelas sem grandes variações estilísticas e temáticas; trabalhos como ghost-writer para vários escritores durante a vida (inclusive do famoso mágico e artista de fugas Harry Houdini: vide "Aprisionado com os Faraós", da obra A Tumba e Outras Histórias), e muito poucos trabalhos publicados em vida, nenhum deles fora do círculo restrito das pulp magazines americanas. Como, então, explicar o fascínio constante que as histórias deste autor exercem até hoje sobre os leitores do mundo inteiro? Lovecraft teve uma vida estranha: tinha uma saúde delicada, fato que lhe impedia de freqüentar a escola assiduamente. Porém, foi uma criança precoce. Aos três anos foi alfabetizado, lia e recitava poemas. Aos cinco anos leu As Mil e Uma Noites; e aos seis escreveu O Poema de Ulisses, obra rimada com 88 linhas inspirada na Odisséia. A morte de sua avó em 1896, abalou profundamente a família e especialmente Lovecraft. Em uma carta datada de 16 de novembro de 1916, o escritor confessa: "...assim que começo a cair no sono experimento um arrepio de medo, e luto instintivamente para manter-me acordado...". Estes pesadelos provavelmente o inspiraram a escrever The Dreamquest of Unknown Kadath (À Procura de Kadath). Seu pai faleceu em 1898. Porém, essa perda não foi tão sentida, pois o Sr. Winfield estava internado há cinco anos. Ainda no ano de 1898, Lovecraft ingressa na Slater Avenue School no último ano do ensino primário, mas a saúde deficitária o impede de concluir o ano letivo. A partir daí, o jovem estuda em casa sem o acompanhamento de tutores. Retorna para a mesma escola em 1902. Neste período, interessa-se por astronomia e redige o "Jornal de Astronomia de Rhode Island" que teve 69 edições. No ano seguinte, Lovecraft deixa a escola novamente devido ao St. Vitus's Dance, uma doença de ordem nervosa. Seus estudos ficam limitados ao acompanhamento dos tutores contratados. O avô Whipple era um proeminente negociante local. Foi a figura paterna presente na vida de Lovecraft; compartilhou o fascínio pela literatura gótica e instruiu-lhe ao Latim. Sua morte em 1904 abalou a estrutura financeira da família. Lovecraft e sua mãe deixaram o casarão onde moravam, e mudaram-se para um discreto apartamento na mesma cidade. Pouco tempo depois, tenta o suicídio jogando-se de bicicleta no Barrington River. No final do mesmo ano, entra no "Hope Street English and Classical High School", e durante os anos seguintes publica vários artigos de astronomia nos jornais locais. Em 1908 sofre outro colapso impedindo de concluir o segundo grau, e entrar na "Brown University". Este fato o abalou de tal forma, que Lovecraft tornou-se recluso e apático durante cinco anos, e pouco se sabe deste período. Viveu quase toda a vida com a mãe, casou-se uma única vez com uma mulher bem mais velha, e após a separação, cinco anos depois, morou com duas tias até a sua morte. Viveu na cidade natal a vida inteira, exceto por dois anos em Nova Iorque e algumas viagens já nos últimos anos de vida. Era homem extremamente caseiro e adorava gatos. Uma personalidade introvertida, que preferia contatos por carta: sua correspondência deve chegar a cem mil cartas, e foi publicada em cinco volumes nos Estados Unidos. Escreveu muita coisa em sua adolescência, mas que depois não aproveitou e destruiu.Em abril de 1914, Lovecraft torna-se membro da "Associação Unida da Imprensa Amadora" (UAPA). Participa com muito entusiasmo escrevendo vários contos e poemas para jornais amadores. O conto O Alquimista foi publicado em 1916, mas foi escrito oito anos antes. A resposta favorável o incentivou a continuar publicando suas estórias de ficção. Logo depois, The Tumb (A Tumba) e Dagon também tiveram boa aceitação. Em maio de 1917 tornou-se presidente da UAPA, cargo que ocuparia até 1922. Após a morte de sua mãe em 1921, escreve Desespero e O Intruso. Estas obras expressam a angústia do escritor perante a mais uma perda. Um mês depois, é convidado a integrar a "Associação Nacional da Imprensa Amadora". Os últimos anos de sua vida foram marcados por mais sofrimentos e desilusões. Seus contos tornam-se excessivamente longos e difíceis de serem publicados. Lovecraft então, passa a trabalhar como revisor de textos. Em 1932, morre uma de suas tias. O escritor muda-se novamente para outra casa, e já sofre com o câncer de estômago. No dia 10 de março de 1937, Lovecraft é internado devido as fortes dores no estômago e logo em seguida falece. Foi enterrado no mesmo dia no Swan Point Cemetery.
Lovecraft morreu sem nunca ter publicado um livro. Apenas poemas, contos e ensaios em publicações regionais. Sua obra foi reunida posteriormente graças a amigos como August Derleth e Donald Wandrei, que fundaram a editora "Arkham House" exclusivamente para preservar e divulgar as obras do autor. Porém, sua importância é incontestável perante a literatura fantástica mundial.
Mas o que levou Lovecraft a escrever justamente sobre um tema que parecia tão forte para um homem com sua personalidade? A resposta talvez se encontre na primeira frase do seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura: "A emoção mais forte e antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos, e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária."Em que pese o racionalismo de Lovecraft, a verdade admitida neste caso é que ele sabia lidar muito bem com o medo das pessoas. À diferença de Poe, que tinha predileção pelo mórbido, Lovecraft expõe o Indizível; quase sempre inicia suas histórias com um narrador que faz saber ao leitor a ocorrência de um fato tão grotesco e assustador que não pode ser revelado; mas, subitamente, como se instado pelo interlocutor, decide abrir mão do silêncio.Nisso Lovecraft é mestre: na arte da descrição. Os adjetivos pesados e muitas vezes inúteis não conseguem reduzir a potência de suas descrições, seja ao falar de cidades do mundo dos sonhos, como a desconhecida Kadath, ou as paredes de Eryx, em Vênus, e que se encontra no livro A Tumba e Outras Histórias. As criaturas místicas ou extraterrestres por ele apresentadas ao leitor são sempre frutos de pesadelos (e algumas vezes saíram realmente de pesadelos de Lovecraft), e essas narrativas marcam o leitor de forma que muitas vezes este se descobre devorando o livro até o final, qualquer consideração de ordem científica ou até mesmo racional deve ser posta de lado nessas horas. O próprio Lovecraft é quem diz, no ensaio citado acima, que "O mais importante de tudo é a atmosfera, pois o critério final de autenticidade não é o recorte de uma trama e sim a criação de uma determinada situação."O imaginário de Lovecraft, segundo o escritor Robert Bloch (autor de Psicose e discípulo de Lovecraft) no ensaio Heritage of Horror, é limitado, simplesmente, pela sua condição de vida e pela época em que vivia. Hoje, para muitos leitores, pode causar mal-estar e xenofobia que Lovecraft nutre, principalmente por negros, orientais e todos aqueles que não possuem descendência anglo-saxônica. Mas isso não era privilégio dele: não devemos nos esquecer de que no período que compreende a I Guerra Mundial e seu intervalo até a II, demonstrações de fascismo implícito são constantes: nem mesmo Flash Gordon (cujo vilão, Ming, apesar de extraterrestre tem traços orientais) escapou desse sentimento. O restante não é difícil de deduzir: isolado por natureza, ele fazia os contos com o material de seus sonhos e devaneios, além de idéias surgidas em trocas de cartas. Não era à toa que era amigo de Robert E.Howard, autor do famoso Conan, O Bárbaro: ambos: ambos compartilhavam características parecidas, como a solidão e o desejo de superação de suas fraquezas humanas: o que este último conseguiu através da criação de um guerreiro forte e imbatível o outro conseguiu com a criação de monstruosidades que desafiam a nossa compreensão. No livro de biografias Science Fiction Writers, o escritor Colin Wilson (autor de Vampiros dos Espaços), ao escrever o ensaio sobre Lovecraft, considera que, como Kafka (?), a importância simbólica de sua obra é provavelmente maior do que qualquer coisa que ele tenha realmente escrito. Talvez. Mas isso não desmerece o ato de que uma de suas maiores contribuições tenha sido precisamente influenciar autores que surgiriam depois e que se firmariam, estes sim, como expoentes do fantástico. O mais conhecido é o argentino Jorge Luís Borges, que lhe dedica o conto There are More Things, uma história de terror na melhor tradição e estilo lovecraftianos. E não esse apenas, mas grande parte dos contos de Borges mostra a influência desse americano em sua obra, notadamente nas descrições e citações de livros imaginários. Outro autor que provavelmente recebeu influência de Lovecraft foi o italiano Ítalo Calvino, com sua descrição das cidades imaginárias que Marco Polo visitou. Naturalmente, a influência de Lovecraft e sua redescoberta não se dera por acaso. Pouco depois de sua morte (como é de praxe), os jovens escritores August Derleth e Donald Wandrei, editores da Weird Stories, revista em que Lovecraft mais publicou em vida, começaram, na década de 1940, as primeiras publicações em livro de bolso da obra desse autor. O filão descoberto provou ser bastante lucrativo: até hoje, a editora fundada por eles, a Arkham House, publica antologias baseadas em histórias de Lovecraft, geralmente com um conto do autor e o restante imitações muitas vezes inferiores de iniciantes mais um outro autor mais famoso. O cinema volta e meia o descobre: em 85 e 87, respectivamente, foram lançados dois filmes baseados em seus contos: Reanimator e From Beyond, ambos competentemente realizados, mas ambientados em nossa época, sem a atmosfera de terror tão necessária. Provavelmente a melhor adaptação visual de um conto de Lovecraft fique mesmo com Vento Frio, episódio da série de TV Galeria do Terror, em 1971. Pois a força de Howard Phillips Lovecraft reside justamente nisso: a força de suas imagens; imagens que prendem o leitor por completo, expondo um terror que nem sempre depende de sangue e nojo, mas do pavor, dos medos ancestrais do homem, de tudo o que é inexplicável e indizível. Prefácio do livro A Tumba e Outras Histórias. Texto de autoria de Fábio Fernandes, tradutor e jornalista.A cronologia completa de H.P.Lovecraft a seguir foi feita pelo próprio autor:
Dagon,1917
A Tumba, 1917
Polaris, 1918
Beyond the Wall of Sleep, 1919
The Doom That Came to Sarnath, 1919
O Depoimento de Randolph Carter, 1919
The White Ship, 1919
Arthur Jermyn (The White Ape), 1920
The Cats of Uthar, 1920
Celephais, 1920
From Beyond, 1920
A Estampa da Casa Maldita, 1920
The Temple, 1920
Um Frágil Ancião, 1920
The Tree, 1920
The Moon-Bog, 1921
The Music of Erich Zann, 1921
The Nameless City, 1921
The Other Gods, 1921
The Outsider, 1921
The Quest of Iranon, 1921
Herbert West: Reanimator, 1921-1922
The Hound,1922
Hypnos, 1922
Aprisionados pelo Medo, 1923
O Festival, 1923
The Rats in the Walls, 1923
The Unnamable, 1923
Aprisionados com os Faraós, 1924
A Casa Abandonada, 1924
He, 1925
O Horror em Red Hook, 1925
In The Vault, 1925
O Chamado de Cthulhu, 1926
Vento Frio, 1926
Pickman´s Model, 1926
A Chave de Prata, 1926
A Estranha Casa Suspensa na Neblina, 1926
A Cor que caiu do Céu, 1927
O Caso de Charles Dexter Ward, 1927-1928
The Dunwich Horror, 1928
Um Sussuro nas Trevas, 1930
The Shadow over Innsmouth, 1931
Nas Montanhas da Loucura, 1931
Os Sonhos nas Casas das Bruxas, 1932
Através das Portas da Chave de Prata, 1932
The Thing on the Doorstep, 1933
Sombras Perdidas no Tempo, 1934
Nas Paredes de Eryx, 1935
The Haunter of The Dark, 1935
O Clérigo Diabólico, 1937
Segundo L. Sprague de Camp, autor consagrado de ficção científica e biógrafo de Lovecraft, ele escreveu cerca de sessenta e cinco contos; desta relação constam apenas 51. Entre os que faltam, está o famoso The Dream-Quest of the Unknown Hadath, de 1920. Os contos em português, naturalmente, foram, até o momento, os únicos traduzidos no Brasil e em Portugal, mas isso foi a pouco tempo atrás, pois até então seus contos estavam disponíveis somente na lingua inglesa.

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